domingo, 7 de março de 2010

Por que ler O cortiço?

A importância de se ler a obra O cortiço, de Aluísio Azevedo, está concatenada à visão de mundo naturalista, isto é, à ideia de que o ser humano- por viver em comunidade, e estar às vezes diante de um mundo degradado- é o resultado de uma experiência, pois todo ser (segundo a lógica determinista) projeta-se a partir dos resultados de fatores externos, ou internos, isto é, o meio, o contexto histórico e fatores hereditários contribuem para a formação do mesmo.

Aluísio dialoga com as esferas do determinismo de Taine, uma vez que seus personagens patológicos tem uma raiz embasada num lastro cientificista, e isso projeta O cortiço como um elemento que vai se transformar minuciosamente. Pois ele está inserido em um mundo degradado. As particularidades encontradas em O cortiço, tais como o caso trágico de Piedade, mulher de Jerônimo, que se entregou ao álcool após perder seu marido para Rita Baiana, mulata sensual que por intermédio de seu instinto sedutor, “fisga” o português Jerônimo. Isso, sem falar de João Romão que se enriquece diante do aumento gradual do cortiço.


A Obra de Azevedo oferece uma leitura crítica da situação dos pobres- por sinal é uma das obras em que o protagonismo está circunscrito no universo dos pobres- no Rio de Janeiro em fins do século XIX, pois apresenta a maneira como as pessoas que viviam em cortiços sobreviviam. Aluísio faz uma denúncia cruel à miséria a partir do seu conglomerado humano, isto é, o cortiço.
O cânone literário, a princípio, não considerava O cortiço uma obra séria para ser lida, já que ela expunha temas tabus como a homossexualidade, a prostituição, o alcoolismo dentre outros. Para alguns, os textos naturalistas eram tidos como pornográficos, uma vez que tais temáticas, encontradas nos textos naturalistas, circunscreviam um universo que ia contraproducentemente em direção a um outro postulado, ou seja, o da moral.

A obra ganha no âmbito da discussão, portanto, fôlego. Diante disso, quando começamos a analisar alguns aspectos da vida social, isto é, no emaranhado dos bolsões de pobreza, da formação dos morros cariocas e favelas, encontramos alguns elementos da obra de Azevedo. Por isso, O cortiço, a meu ver, deve ser lido. Tal obra poderá ser lida em qualquer época – por isso o seu caráter universal- porque é a partir de obras deste nível (crítico e de denúncia) que encontramos males do século XIX ainda presentes no século XXI.

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